terça-feira, novembro 11, 2008

a senhora ministra

a mim até me custa fazer isto. vai contra a minha maneira de ser. mas vai ter mesmo que ser. estou aqui hoje para tomar o partido da ministra nesta guerra das avaliações que leva 120 mil stôres para a rua e faz com o que o processo de avaliação seja suspenso na "melhor escola pública do país".


relativamente a isto tenho uma opinião formada, que vai um bocadinho contra aquilo que os sindicatos dos professores nos andam a tentar vender (aproveito para dizer que não tenho nada contra sindicatos, eu próprio sou sindicalizado). para mim, a principal questão é que os professores não querem ser avaliados. ponto. o facto de o modelo de avaliação escolhido ser aparentemente confuso e complicado é apenas uma desculpa. o que os sindicatos pretendem ao propôr modelos alternativos (cuja validade desconheço) é apenas procrastinar, até vir um ministro mais mole que deixe cair a avaliação.

relativamente à avaliação, esta é de facto fundamental. às vezes fico com a ideia de que os professores já se esqueceram que o sistema de ensino existe para servir os interesses da sociedade e dos alunos, e não o dos professores (claro que os interesses dos alunos são algo mais complexo do que os próprios conseguirão articular, mas isso é outra guerra). deste minha afirmação, fica claro que no sistema de ensino é prestado um serviço, o que implica que exista um cliente, que neste caso serão os alunos e a sociedade. como qualquer "iniciado" em qualidade sabe, a única forma de melhorar a qualidade de um serviço é perceber qual a opinião do cliente. parece-me que na educação, a única forma de conseguir saber qual a opinião do cliente é através da avaliação dos prestadores do serviço, no caso os professores. que estes estejam habituados a não ser avaliados, a progredir automaticamente na carreira e coiso e tal, isso é lá problema deles. eu acho que eles devem ser avaliados. e já. e os do superior também. e já.

aquilo que eu vou dizer agora é que será de facto polémico... a situação actual da educação não é da exclusiva responsabilidade deste ou daquele ministro. em grande parte, também é de muitos professores. todos sabemos que existem excelentes professores. mas também todos sabemos que as escolas estão cheias de "nulidades". e serão estes últimos que estarão particularmente preocupados com a avaliação.

não posso deixar de referir o que ouvi hoje na rádio alguém da comissão executiva da "melhor escola pública do país". que eram contra a avaliação porque estava a dar muito trabalho... ora porra, trabalhem! é para isso que vos pagam! ainda mais os professores dessa ignóbil escola, infelizmente situada na zona do calhabé...

enfim... desculpem o desabafo, mas teve mesmo que ser. também não posso deixar de dizer que neste post estou a ser muito injusto com muitos bons, muito bons e excelentes professores que existem por essas escolas. a eles as minhas desculpas. aos outros...

21 comentários:

Toni disse...

Essa escola pública lá prós lados do Calhabé que, por acaso, foi onde eu estudei, tinha, e com certeza ainda terá, uma característica que a tornava referência em termos de ensino. No D. Maria havia (há) estabilidade do corpo docente. Eu tive os mesmos professores desde o 7º ao 12º e recordo-me de muitos deles pela competência, pela autoridade de conhecimento que foram e até pela amizade. Obviamente que também tive "nulidades", mas essas nulidades inseridas no meio de bons professores acabavam por se refinar e melhorarem (sim, porque eu também os avaliava) ao longo do ano. A atitude tomada pela escola deverá ter tido em conta a velha máxima da "equipa que ganha não se mexe". Como as coisas correm bem por lá, como os professores são da "velha guarda" e certamente são pouco dados a inovações, além de que a cena da "melhor escola pública" fica maravilhosamente bem na primeira página do jornal; foi melhor suspender o processo, antes que se vá o título. Mas se são a "melhor escola", trabalhem no sentido de revalidar esse "estatuto" ano após ano. Se as regras do jogo mudam, temos de nos adaptar a elas e continuar a liderar.

O teu post está excelente e estou de acordo contigo! E só não entendo porque os 120 mil stôres que andaram na rua, não tenham levado consigo a declaração de IRS em punho.

Abraço

Andreia do Flautim disse...

Eu não concordo com o que disseste. Eu sou professora, apesar de neste momento não estar a leccionar, e só quem realmente está dentro do ensino é que se pode pronunciar, não é dizer umas coisas para o ar só porque se ouviu dizer...

Os professores sempre foram avaliados, por um método que até aqui tinha funcionado bem, agora esta ministra é que decidiu que tem de haver mais burocracia inutil... enfim! É essa burocracia que tem de ser eliminada.

E já agora, não sei se andaste no ensino superior, nem em que universidade foi, mas eu digo-te já que na minha universidade os professores também eram avaliados, inclusive pelos alunos.

ame disse...

bem... assunto em q tb meto a colherada.
A avaliação é imprescindível, na minha opinião. Toda a vida ouvimos dizer que é injusto os melhores ganharem o mesmo que os que nada fazem... Só para exemplificar um extremo, conheço o caso de quem não dá aulas (nem tem outras tarefas escolares) vai para 10 anos e nesses mesmos 10 anos tenha atingido o topo da carreira!
Parece-me que a avaliação pelos pares será a mais correcta, mas não estou muito por dentro destas propostas.
Na minha opinião, as razões do protesto estão muito para além da avaliação: a desmotivação com alunos sistematicamente mais fracos e mal-educados, com o número de anos que se leva a "estabilizar" numa escola, com a quantidade de gente boa no desemprego (os que n leccionam e certamente lá estavam), a perda de benefícios (nem todos chegarão ao topo de carreira), a perda de uma das melhores coisas de se ser professor (mas q a maioria não reconhece) que é a possibilidade de gerir o seu tempo (um dia livre ou mesmo uma manhã ou uma tarde, é um luxo que muito poucas profissões podem oferecer) sendo substituido por tarefas burocráticas (mas alguém gosta disso)...

Anónimo disse...

Andreia minha querida,

Porque metodo de avaliação é que os professores eram avaliados até agr??

Alguma vez isso teve algum efeito prático na qualidade do ensino público?? Não me parece..

É óbvio que aqui não me refiro ao ensino superior, porque aí cada universidade/escola tem autonomia.

Desculpa mas pareçe-me que tu és das tais pessoas que "diz umas coisas para o ar só porque ouviu dizer".

Abraço.

Brise disse...

porra! tinha acabado de escrever um comentário, como habitualmente, genial e fechei a janela sem o publicar...

estou triste :( e, ainda por cima, tenho que ir trabalhar...

Andreia do Flautim disse...

Anónimo,

e achas que este método vai ter algum efeito prático quando o que interessa não é ter tempo para preparar as aulas, mas sim preocupar-se com a parte burocrática da avaliação?

Então nesse caso se calhar mais valia as escolas também terem autonomia para tal.

É muito triste ver colegas que já não se importam de preparar as aulas em condições pois todo este processo burocrático lhes tira o tempo que tinham para isso. Porque as pessoas não são exclusivamente professores, também têm familia, filhos, etc. Não é um tipo de trabalho que acabado o tempo na escola não se faz mais nada. Tem de se preparar as aulas, fazer avaliações de alunos, corrigir trabalhos, fazer e corrigir testes, entre outros.

disse...

Este assunto está tão escaldante por aqui que até a mim me aptece meter uma "colherada" :D
Eu não sei qual é o metodo de avaliação em causa, será que alguem me pode explicar?!?
Eu não sei, mas ouvi hoje na rádio o nosso 1º dizer que o processo de avaliação era resumido a 4 folhas?!?
Eu sinceramente acho que os senhores professores estão habituados a ter uma boa vida com muitas regalias e com bastante tempo livre para conseguir, por exemplo, rendimentos extra com explicações (quase todas as exlicações que tive no secundario eram dadas por professores no activo).
Posto isto vou continuar a minha busca de emprego porque vida dificil é da engenheiro e a de formador!! :D
Beijos

Brise disse...

bom, dada a efervescente discussão que o meu post está a levantar, não resisto a tentar comentar novamente.

primeiro quero agradecer o comentário do toni, apesar de ter dito algumas inverdades num comentário a outro post. eu não tenho um bocado de mau feitio. tenho muito, mas mesmo muito, mau feitio. feito este esclarecimento, tenho que concordar contigo quando dizes que a estabilidade do corpo docente é importante e é algo que de facto precisa, urgentemente, de ser melhorado. não só por causa dos alunos, mas também pelos professores. relativamente à ignóbil escola, quem mora em coimbra facilmente percebe porque é que é a "melhor escola pública". é que todos os sô dôtores se desunham para pôr lá os filhos. sendo também a escola bastante permissiva em relação a isso, é fácil perceber que é frequentada, em grande parte, por filhos da classe média alta e alta. ora com alunos desses até eu era bom professor...

quanto ao facto de os professores terem sido sempre avaliados, desconhecia. a não ser que a andreia se esteja a referir à avaliação a que eram sujeitos todos os funcionários da administração pública. se for esse o caso, acho que chamar-lhe avaliação é um exagero. é certo que as coisas corriam bem. todos os funcionários eram excelentes, ninguém se chateava com ninguém, todos progrediam alegremente nas carreiras e, obviamente, não íamos a lado nenhum. devo recordar-te que não é só a avaliação dos professores que mudou. a avaliação da generalidade dos funcionários também se alterou (siadap e coiso e tal). posso dizer-te que este sistema de avaliação também não é simples, mas é necessário. e não levantou o celeuma que a dos professores está a levantar.

relativamente ao facto do processo ser burocrático, obviamente que o é, como qualquer sistema de avaliação decente. para que a avaliação seja efectiva (ou seja, que produza melhorias), são necessárias evidências objectivas. e essas evidências terão, neste caso, que ser registos (pápeis ou outro tipo de documentos) onde constem os objectivos propostos, os resultados da avaliação e as acções correctivas, ou melhorias, necessárias. portanto, não me parece que seja burocracia inútil. é simples? seguramente que não. dá trabalho? dá. é impossível? não, até porque os professores são pessoas com formação...

é por isso, que eu acho que a ame (mesmo sem botija) vai ao fundo da questão. toda esta agitação não se deve somente à avaliação, mas sim também a outras questões, entre as quais a perda de alguns privilégios. mas fica mal 120 mil gajos na rua a dizer que não querem mais trabalho do que aquele que já têm...

mas para palhaçada nada se compara à avaliação dos docentes do ensino superior. até acredito que a generalidade das instituições a faça. mas para quê? em nenhum delas esta avaliação tem quaisquer consequências (excepto talvez no ensino privado, em que serve para mandar docentes para a rua). haverá alguns professores aproveitam os resultados dessas avaliações para tentar melhorar. mas muitos mais haverá que se limitam a "passar o papel" na aula, para a alunada ficar contente e a pensar que a sua opinião até conta para alguma coisa.

também não posso deixar de me rebolar a rir com história dos professores que, por causa da avaliação, já não têm tempo para preparar aulas. deculpem-me a brutalidade, mas não acredito. até acredito que percam muito tempo com a avaliação, a discuti-la nos corredores com os colegas, a tomar café e a dizer que aquilo dá muito trabalho... obviamente que dá, e que demora muito tempo. mas não será por causa da má vontade com que a estão a encarar?

resta-me desejar boa sorte à té com a procura de emprego.

despeço-me, com amizade, até ao próximo comentário.

p.s esqueci-me de dizer que não estou envolvido, de qualquer forma, com o ministério da educação

mariazinha disse...

os professores não querem ser avaliados

eu sou professora

eu quero ser avaliada

logo: esta frase é uma mentira e uma calúnia contra a minha pessoa.

Mas:
-eu quero ser avaliada por alguém que não esteja a concorrer ao mesmo lugar que eu;

-eu quero ser avaliada por alguém que não tenha menos habilitações que eu;

-eu quero ser avaliada por um método que não use indicadores como as notas dos meus alunos (uns estudam, outros nem por isso), a assiduidade dos meus alunos (uns vêm à escola, outros ficam em casa com a conivência das famílias), ou as notas dos meus alunos no exame nacional (uns são nervosos e espalham-se, outros têm uma dor de cabeça no dia, outros estão em perfeitas condições);

-eu quero ser avaliada por um método que me garanta, tendo eu cumprido todos os requisitos do processo, que progrido na carreira, e não um método em que só progride uma pequena percentagem dos que cumprem, percentagem essa decidida por critérios arbitrários;

-eu quero ser avaliada, por um método estudado, testado e depois aplicado por quem esteja habilitado a avaliar uma profissão que tem, como todas, especificidades que condicionam essa mesma avaliação.

Este post é leviano e só mostra que o seu autor desconhece a realidade, os documentos e a legislação sobre a qual opina.

Cumprimentos,
Maria

Lya disse...

Brise

vou fazer um comentário à moda da Andreia do Flautin: adorei o post! heheheh



*há dias colokei esta kestão no meu blog.

ame disse...

Estou por fora do sistema de avaliação de professores, e, se bem que o ensino tenha mudado muito nestes últimos tempos (será que foi tanto assim?), continuo a acompanhar a “vida da escola”, uma vez que trabalho com professores. Mas depois de ler o comentário da Mariazinha, tenho mesmo de perguntar:


- eu quero ser avaliada por alguém que não tenha menos habilitações que eu;
A diferença é um mestrado? Os anos de carreira não serão um factor mais importante?


-eu quero ser avaliada por um método que não use indicadores como as notas dos meus alunos (uns estudam, outros nem por isso), a assiduidade dos meus alunos (uns vêm à escola, outros ficam em casa com a conivência das famílias), ou as notas dos meus alunos no exame nacional (uns são nervosos e espalham-se, outros têm uma dor de cabeça no dia, outros estão em perfeitas condições);
confesso que gostava que as vendas do que produzo tb não contasse para a minha avaliação, pois a sua aquisição não depende em nada do meu esforço (aliás algumas coisas bem fracas vendem que nem pães quentes), mas conta... Mas é um factor objectivo…

-eu quero ser avaliada por um método que me garanta, tendo eu cumprido todos os requisitos do processo, que progrido na carreira, e não um método em que só progride uma pequena percentagem dos que cumprem, percentagem essa decidida por critérios arbitrários;
Tb sei que nem todos (será que algum) dos meus actuais colegas chegará a administrador… e todos cumprimos as nossas obrigações .O topo de carreira não deve ser, na minha opinião, um dado adquirido.


-eu quero ser avaliada, por um método estudado, testado e depois aplicado por quem esteja habilitado a avaliar uma profissão que tem, como todas, especificidades que condicionam essa mesma avaliação.
E existem outras pessoas que não professores para o fazer? Preferias um gestor?

Brise disse...

mariazinha, antes de mais gostava de te chamar a atenção para a penúltima frase do meu post:

"neste post estou a ser muito injusto com muitos bons, muito bons e excelentes professores que existem por essas escolas. a eles as minhas desculpas" (até copiei a gralha)

tenho perfeitamente consciência que qualquer generalização feita sobre professores ou quaisquer outras pessoas será sempre injusta para alguns. tens todo o direito de te sentir caluniada (acho que isso é óbvio), mas eu também acho que tenho o direito à minha opinião, ainda que tu a aches leviana e desinformada.

como todos já devem ter percebido, para além de ter mau feitio, sou chato e gosto de discutir... sobretudo quando as discussões são interessantes como esta. portanto, não consigo deixar de comentar algumas das coisas que disseste:

. eu pensava que a figura de professor coordenador de departamento curricular serviria exactamente para evitar que a avaliação fosse feita por professores que estivessem a concorrer aos mesmos lugares que o avaliados. acho que esse é o espírito da lei. se na sua aplicação práticas as coisas não se estão a passar assim, então isso será um problema...

. relativamente às percentagens para a atribuição das classificações de muito bom e excelente, percebo que isso possa ser problemático, mas a mim parece-me vital para que a avaliação seja diferenciadora. é um bocado como fazer um teste e todos os alunos terem 20... hás de concordar que isso só quererá dizer que o teste estava mal feito. muitas instituições de ensino já resolveram esse problema atribuindo as classificações aos alunos como A, B, C, D e E. esta escala apenas quer dizer que os alunos classificados com A obtiveram resultados entre os 20% melhores e por aí adiante. acho que isto faz sentido, e é a única maneira de acabar com o facilitismo, em que quase todos os professores eram classificados da mesma maneira.

. relativamente à progressão da carreira, acho que estás enganada. não são só os professores com classificações de excelente e muito bom que progridem na carreira. aqueles que obtiverem classificações de bom também progridem. e para a classificação de bom não há percentagens máximas. portanto, parece-me que quem cumpra todos os requisitos também progredirá na carreira. o que pode acontecer é que quem exceda os requisitos poderá progredir mais depressa, o que me parece bem.

. relativamente a quereres ser avaliada por um método estudado e testado, acho bem. mas conheces algum? acho que os sindicatos não, uma vez que ainda não apresentaram nenhuma proposta. acho que o método que se pretende implementar não é o ideal, mas será um bom ponto de partida. portanto, acho que o vale a pena estudar e testar, para depois o implementar em pleno em 2013...

. e já agora, quem é que achas que está habilitado a avaliar professores? os alunos não serão com certeza (pelo menos no nível de ensino de que estamos a falar). o que eu sempre ouvi é que uma das componentes fundamentais da avaliação pedagógica é a feita pelos pares. portanto, este modelo parece-me muito mais sensato que qualquer modelo que envolva uma avaliação centralizada, feita exclusivamente no dia 5 de outubro.

lya, obrigado pelo comentário. mas acho que foste demasiado comedida. devias ter-me elogiado mais :)

aproveito ainda para pedir desculpa a direcção deste blog pelo sururu que alevantei. prometo que o meu próximo post será sobre o chávez, que me parece agora um assunto muito mais pacífico.

peço também desculpa a que se sinta ofendido pelo tratamento por tu, mas não há nada a fazer.

Brise disse...

pois, os meus comentários são tão longos e tão demorados que até pela ame sou ultrapassado...

ame disse...

isso do até foi....

eu bem tentei dar-te tempo... q isso do mau feitio n é muito do meu feitio...

mariazinha disse...

brise:

por partes (e dentro do espírito da discussão saudável de ideias)

Quanto ao teu primeiro ponto...
O professor coordenador do Departamento é um colega que foi designado para o lugar de coordenador pelo presidente do executivo. Podia ser eu, ou outro qualquer, é um colega. Na maioria dos Departamentos de escolas grandes como aquela em que trabalho, um departamento tem mais de 60 professores. 60*2 aulas assistidas de 90'+ o tempo para o preenchimento subsequente de toda a papelada, faz as contas e vê como seria impossível uma pessoa só avaliar todos. A coordenadora de Departamento do meu departamento, além disso, é de um grupo disciplinar distinto do meu, e portanto nada percebe da matéria que eu ensino. Por isso, delegou no coordenador de disciplina, meu colega de grupo, que está exactamente na mesma posição que eu na carreira, concorrendo, por isso exactamente à mesma única vaga para progressão que o grupo vai ter direito. Eu tenho um doutoramento na área disciplinar que leccionamos, ele não.

Quanto ao teu segundo ponto estou em total desacordo. Os critérios de avaliação pressupõem a aquisição de um determinado número de competências pelos alunos. Aluno que adquira todas as competências com rigor e excelência, tem a nota máxima. Se muitos estão nessas condições, melhor. A atribuição de cotas na avaliação é injusta e tecnocrática. Facilitismo é outra coisa. É, por exemplo, querer que os meninos passem todos até ao 9º ano, como parece ser objectivo do Ministério. Facilitismo é dizer, como a Lei que me rege diz, que "a reprovação é a excepção", e pressionar as escolas a passarem todos os seus alunos em nome das estatísticas. Mas adiante...

Quanto à progressão na carreira, quem está enganado és tu. Segundo este ECD, apenas progride quem tiver Muito Bom ou Excelente, e as cotas para atribuição destas classificações são minúsculas.

A culpa de não saberes que a plataforma sindical já desde o início deste processo apresentou alternativas para a avaliação dos docentes não será tua, mas sim da campanha de desinformação que os nossos media (tudo menos imparciais) têm levado a cabo.
E o Ministério quer este modelo implementado já, e não em 2013.


Quem está habilitado a avaliar professores é quem tem pós-graduações em avaliação de professores, claro. Mas o que os professores questionam neste processo, mais do que ser feito pelos pares, é os indicadores que usa, e as outras questões que já aqui abordei.

E agora diz-me tu:

achas justo um médico ser avaliado pelos doentes que cura? e achas justo que todos os médicos de todas as especialidades sejam avaliados através desse indicador, quer sejam dentistas, quer sejam oncologistas, quer sejam clínicos gerais? Pois é exactamente isso que acontece com este modelo de avaliação dos docentes.


Quanto ao comentário de ame, além do que já disse acima que penso cobrir algumas das suas questões, acrescento o seguinte:

Mal vamos como civilização, quando desejamos aos outros algo que acreditamos estar errado em relação a nós ("gostava que as vendas do que produzo tb não contasse para a minha avaliação, pois a sua aquisição não depende em nada do meu esforço"), só porque nós o temos e os outros não. Mal vamos como civilização quando achamos que algo como o rendimento escolar, que depende de factores tão variados (que incluem coisas como não haver comida em casa para comer e por isso não apetecer estudar, doenças, etc etc) é um "factor objectivo".
Pessoas não são coisas.

E em relação à questão das habilitações, os anos de carreira são importantes, sim, e a formação também, se relevante para a área... mas o que te leva a pensar que os professores avaliadores têm mais anos de carreira? O concurso para "professor titular" valorizou os cargos desempenhados apenas nos últimos 7 anos... dou-te um exemplo: no meu departamento, as 3 primeiras pessoas que subiram a titular foram 3 dos mais novos professores.

Quando afirmo que este modelo de avaliação é perverso e injusto, não o digo sem antes ter lido todos os documentos que permitem conhecê-lo a fundo. Poderais vós dizer o mesmo quando fazeis as vossas observações?

Não me alongo mais. E espero ter contribuido para algum esclarecimento, se assim o entenderem.

Abraços para todos.
Maria

ame disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
ame disse...

devo estar a ser mazinha, mas penso que a civilização não corre perigo ;-)

acho que estou indignada com o motivo da mobilização... a escola pública tem tanto motivo de desmotivação, a carreira docente perdeu tanto do que tinha de bom e prestigiante, em cada concurso os professores são tão maltratados, sendo enviados para longe e muitas vezes com horários que mal pagam as deslocações, a existência dos cef, a dificuldade/impossibilidade de reter alunos, o n.º de licenciados em educação sem emprego...

sinto-me indignada que o que motive 120 mil seja a avaliação... ou pelo menos se afirme publicamente q esse é o problema. Essa é, quanto muito, a ponta do iceberg… e se calhar a motivação mais frágil… porque a maioria serão muito bons ou excelentes?

By myself disse...

Bem...cá venho eu meter o meu nojo!

Deconhecendo os contornos do modelo (nem me interessam os detalhes), e se esta "coisa" desse motivo para referendo, eu votaria SIM à avaliação. Que tudo neste país se faz à custa de grande burocracia, já se sabe e talvez devessemos aprender a simplificar. De qualquer forma, será uma questão de adaptação. Quando pararem de apenas falar do caso e puserem mãos à obra, o processo simplifica. Afinal é preciso testar o modelo e não devem querer que vá lá eu, que até sou química e nunca daria aulas (só o deve fazer quem tenha vocação e disponibilidade mental).
Agora, o mau hábito de não prestarem contas do seu desempenho e se limitarem ao estatuto de carreira docente (que os leva nas palminhas), dá nisto. Terão os "stôres" conhecimento de que os funcionários "do privado" também são sujeitos a avaliação de desempenho, que também está normalizado? E que essa avaliação também pode ocorrer por colegas de formação inferior? Já não se trata da subjectividade de outrora...há parâmetros a cumprir.
É preciso acabar com as profissões intocáveis.
Confrontei-me com as maiores aberrações enquanto corri durante anos para as reuniões de pais e sempre achei que havia gentinha que tinha ali caído de pára-quedas, e que não merecia o que ganhava nem as regalias de que usufruía. Esses devem ficar receosos, sim. Podem chegar à conclusão de que foi um mau investimento o que os pais fizeram.
Se as horas que já gastaram em greves, tivessem sido usadas a preparar as aulas e a estudar os impressos do modelo, já tinhamos aqui um rendimento considerável. (Até pq muitos viajam de longe e só lá vão pelo cumbíbio...)

Brise disse...

ai, ai! cá estou outra vez... vocês não me deixam em paz. mas isto teve uma grande vantagem, pelo menos para mim. à custa desta discussão, esclareci uma série de questões que tinha sobre este assunto...

por uma questão de cortesia, começo por responder à resposta à minha resposta à resposta da mariazinha (acho que contei bem).

relativamente a quem faz a avaliação, parece-me de facto haver alguma confusão. e parece-me um problema que deve ser esclarecido. de qualquer maneira, os professores têm sempre possibilidade de recorrer da avaliação que lhes foi feita. e aqui entra a necessidade da burocracia. afinal a burocracia garante a existência de evidências objectivas sobre a forma como a avaliação foi feita e os critérios utilizados. assim, se algum avaliador tentar proposidamente lixar um colega com uma avaliação errada e injusta, penso que isso será facilmente detectado.

quanto ao segundo ponto, torno a discordar contigo e vou utilizar ainda melhores e mais rebuscados argumentos. os critérios de avaliação utilizados (por exemplo para os alunos) não pretendem apenas testar a aquisição de um conjunto de competências. se o objectivo fosse este, apenas existiriam dois resultados, adquriu (aprovado) e não adquiriu (não aprovado). isto colocaria uma série de problemas. por exemplo, para o aluno ser aprovado teria que adquirir todas as competências? bastaria adquirir 3/4 das competências? seria justo o aluno que adquiriu todas as competências ter a mesma avaliação (aprovado) que o que apenas adquiriu 3/4? acho que para qualquer avaliação onde sejam considerados vários critérios ser justa tem que haver sempre alguma diferenciação. e essa diferenciação implica que as notas sigam algum tipo de distribuição estatística. o teorema do limite central diz-nos que, se considerarmos um número suficientemente grande de factores, essa distribuição será a normal, o que implica que apenas uma pequena percentagem tenha classificações próximas dos valores máximos. e portanto, as quotas fazem sentido. se os valores que estão a ser agora utilizados para essas quotas fazem, ou não sentido, não sei dizer. (a explicação do teorema do limite central feita é muito simplista... espero que a tua área não seja matemática. se for acabei de te dar imensos argumentos para me dares "porrada")

quanto a progressão na carreira, estive a ler o decreto-lei 15/2007 e o que consta no artigo 49.o é:
"1—A atribuição da menção qualitativa de Excelente durante dois períodos consecutivos de avaliação
do desempenho determina a redução de quatro anos no tempo de serviço docente exigido para efeitos de
acesso à categoria de professor titular.
2—A atribuição da menção qualitativa de Excelente e Muito bom durante dois períodos consecutivos
reduz em três anos o tempo mínimo de serviço docente exigido para efeitos de acesso à categoria
de professor titular.
3—A atribuição da menção qualitativa de Muito bom durante dois períodos consecutivos reduz em dois
anos o tempo mínimo de serviço docente exigido para efeitos de acesso à categoria de professor titular.
4—A atribuição da menção qualitativa de Bom determina:
a) Que seja considerado o período de tempo a que respeita para efeitos de progressão e acesso na
carreira;
b) A conversão da nomeação provisória em nomeação definitiva no termo do período probatório."
(disponível em http://min-edu.pt/np3content/?newsId=1176&fileName=decreto_lei_15_2007.pdf)
portanto, se estou a ler o dl certo, confirma-se aquilo que disse. quem tiver avaliação de bom progride normalmente na carreira. quem tiver avaliação de excelente ou muito bom progride mais rapidamente. parece-me bem.

quanto as propostas dos sindicatos eu já sabia que elas existiam. preferi foi nem falar sobre elas. o que os sindicatos queriam era manter um sistema de avaliação em tudo semelhante ao anterior e, portanto, criar uma situação de excepção para os professores em relação aos restantes trabalhadores da administração pública (avaliados pelo siadap)

também concordo que os media têm sido parciais... atacam demasiado a ministra :)

quanto a implementação do modelo ela é de facto imediata. mas, segundo proposta do ministério, "a avaliação de desempenho não terá efeitos no próximo concurso de professores, mas apenas em 2010 no caso dos contratados e quadros de zona pedagógica e em 2013 para a grande maioria dos docentes." (citação retirada de http://www.educare.pt/educare/Actualidade.Noticia.aspx?contentid=5AC8B294C668EBBEE0400A0AB8002FE5&channelid=1EE474ED3B3E054C8DCFD48A24FF0E1B&opsel=1). portanto haverá tempo para ajustar e corrigir o modelo de avaliação. coisas como a que tu referes relativamente a quem faz a avaliação.

na mesma notícia referida acima constam ainda algumas pérolas:
"Da mesma forma, a Federação Nacional do Ensino e Investigação (FENEI) rejeita "liminarmente a inclusão do resultado da avaliação de desempenho nos factores determinantes" dos concursos de professores, até agora apenas dependentes do tempo de serviço e da nota da licenciatura."

""O que nós sempre contestámos é que a avaliação tenha efeitos nos concursos de colocação de professores, independentemente de ser em 2009, 2010 ou 2013. Por isso, não houve qualquer aproximação por parte do ME", disse à Lusa o secretário-geral da Federação Nacional dos Professores (FENPROF), Mário Nogueira."

"a Federação Nacional dos Sindicatos da Educação (FNE) considera que "nunca, em qualquer circunstância", o modelo de avaliação de desempenho do Ministério "deverá influenciar a graduação profissional dos docentes para efeitos de concursos"."

portanto, o que os sindicatos parecem querer é que a avaliação não tenha qualquer efeito prático...

relativamente às perguntas que fazes directamente, não acho justo que os médicos sejam avaliados pelos doentes que curam. se assim fosse, os oncologistas estavam lixados, mas não percebo o que é que isso tem a ver com os professores.

e obrigado, contribuiste, de facto, para o meu esclarecimento, mas na direcção oposta da que estarias à espera :)

a myself (ela própria, não eu) toca num ponto que me parece importante e que estará na origem de alguma má vontade que possa existir relativamente à classe docente. eu também conheci algumas das aberrações que ela refere, que não mereciam o que ganhavam nem os privilégios que tinha. mas esses continuavam a progredir alegremente na carreira. tanto como os que mereciam de facto progredir. acho que é altura de corrigir isso e esta avaliação parece-me uma ferramenta fundamental.

Brise disse...

esqueci-me de dizer uma coisa. posso não concordar com a atitude dos professores, posso discordar com aquilo que os sindicatos dizem, mas no meio disto tudo só há uma coisa que realmente me enoja. e é o aproveitamento político que tem sido feita. da esquerda à direita, manuel alegre incluído. já todos perceberam que (infelizmente) será difícil ganhar ao socrátes. por isso toca de aproveitar quaisquer 120 mil votos que estejam à mão de semear...

ainda alguém se lembra da merda que a ferreira leite fez quando era ministra da educação?

Brise disse...

então... mais ninguém me acusa de andar a dizer umas leviandades para o ar?...